Cinco fatores que põem em risco a cirurgia de recobrimento radicular
- Paulo Rossetti

- 16 de jun.
- 3 min de leitura

Recobrimento radicular: 100 anos
A cirurgia original para recobrimento radicular, conhecida como retalho posicionado coronalmente (RPC), faz aniversário. Essa personagem centenária foi descrita por Norberg em 1926.
Desde então, sofreu diversas modificações, passando pela inclusão do enxerto de tecido conjuntivo (ETC).
Atualmente, essa associação RPC + ETC confere excelente estabilidade marginal aos tecidos gengivais. Entretanto, quando se fala em biologia, há limitações.
Embora a combinação de Retalho Posicionado Coronalmente (RPC) com Enxerto de Tecido Conjuntivo (ETC) seja o padrão-ouro periodontal, cinco fatores críticos ameaçam sua estabilidade, como relatado na revisão narrativa conduzida por Zucchelli e colaboradores que analisou estudos entre 5 e 20 anos de acompanhamento.
1. Fenótipo Periodontal Fino e Delicado
O fenótipo do paciente dita o comportamento dos tecidos após a cicatrização. Indivíduos com gengiva fina e pouco tecido queratinizado sofrem maior risco de recidiva apical.
O cirurgião utiliza o ETC justamente para modificar essa biologia, transformando um fenótipo frágil em um biótipo robusto.
Ignorar a necessidade de espessamento tecidual em pacientes delicados condena a margem gengival à migração tardia. A ciência comprova que a espessura gengival superior a 1mm protege o recobrimento radicular contra as agressões do tempo.
2. Proeminência Radicular Acentuada
A posição do dente no arco influencia diretamente a tensão sobre o retalho. Raízes proeminentes criam uma convexidade que dificulta a manutenção da margem na posição correta.
Essa arquitetura desfavorável atua como um fator mecânico de pressão constante contra o tecido mole. O clínico deve compensar essa proeminência com um enxerto de volume adequado para mascarar a raiz.
Sem essa compensação volumétrica, a escovação e o movimento labial empurram a gengiva de volta para a posição da recessão original.
3. Presença de Lesões Cervicais Não Cariosas (LCNC)
A condição da superfície radicular determina a qualidade da adesão do tecido. Lesões de abrasão ou erosão alteram a anatomia da junção cemento-esmalte, criando degraus que prejudicam o selamento biológico.
A revisão destaca que restaurações prévias em resina podem interferir na estabilidade do retalho se o acabamento for deficiente.
Assim, o(a) cirurgião (a) dentista precisa planejar a interface entre o material restaurador e a margem gengival com perfeição. Qualquer irregularidade nessa zona de transição favorece o acúmulo de placa e a inflamação tecidual.
4. Tensão Excessiva no Retalho e Profundidade do Vestíbulo
A estabilidade do RPC depende de um posicionamento passivo sobre a raiz. Um vestíbulo raso ou freios tracionando a margem geram tensões que comprometem a vascularização inicial.
O cirurgião deve realizar liberações musculares precisas para garantir que o retalho não sofra tração durante a fala ou mastigação.
A literatura analisada demonstra que a tensão excessiva causa a deiscência da sutura e a exposição precoce do enxerto. O controle da mecânica tecidual define se o resultado permanecerá intacto após o primeiro ano de acompanhamento.
5. Trauma Mecânico e Higiene Oral Inadequada
O comportamento do paciente após a cirurgia decide a longevidade do tratamento. Técnicas de escovação traumáticas destroem o ganho de espessura alcançado com o ETC.
Finalmente a revisão feita por Zucchelli e colaboradores enfatiza que o controle profissional periódico evita a inflamação crônica que leva à perda de inserção.
O paciente deve adotar métodos de higienização não traumáticos para preservar a barreira biológica reconstruída.
A estabilidade de 20 anos reportada na pesquisa reflete uma parceria rigorosa entre o clínico e o paciente no controle dos fatores ambientais.




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