Doenças respiratórias: saúde e guia de triagem no consultório
- Paulo Rossetti

- 18 de jun.
- 4 min de leitura

O Fenômeno "Super El Niño" e as Doenças Respiratórias: qual é a relação?
O ano de 2026 consolidou-se como um marco climático devido à intensidade do fenômeno Super El Niño.
As alterações atmosféricas globais resultaram em um padrão de calor extremo e, principalmente, em uma queda drástica nos índices de umidade relativa do ar em grande parte do território brasileiro, frequentemente atingindo níveis críticos abaixo de 20%.
Para o sistema respiratório humano, a baixa umidade provoca o ressecamento das mucosas nasais e orais, comprometendo a função dos cílios epiteliais e a viscosidade do muco, que atuam como a primeira linha de defesa contra patógenos.
Neste contexto, as vias aéreas tornam-se portas abertas para doenças respiratórias.
O ar seco não apenas fragiliza o hospedeiro, mas também favorece a suspensão de partículas virais e bacterianas por períodos mais longos na atmosfera.
Para o cirurgião-dentista, entender essa dinâmica climática não é mais uma questão de curiosidade meteorológica, mas um imperativo de sobrevivência profissional e segurança clínica.
O Risco na Odontologia: Aerossóis e a Realidade de 2026
A prática odontológica é intrinsecamente geradora de aerossóis. O uso de canetas de alta rotação, seringas tríplices e aparelhos de ultrassom cria uma nuvem de partículas microscópicas que mistura água, saliva, sangue e secreções respiratórias.
Em 2026, os dados epidemiológicos são alarmantes: registrou-se um aumento de 26% nos casos de Influenza A e Vírus Sincicial Respiratório (VSR) em comparação ao ano anterior.
A proximidade física — muitas vezes inferior a 30 centímetros da cavidade oral do paciente — coloca o dentista no epicentro da dispersão desses patógenos.
Diferente das gotículas, que precipitam rapidamente, os aerossóis podem permanecer suspensos no ar do consultório por horas, sendo transportados por correntes de ar para áreas comuns e recepções.
Em um ano de El Niño, onde a ventilação natural é muitas vezes sacrificada pelo uso intensivo de ar-condicionado devido ao calor, a concentração desses aerossóis atinge níveis de saturação perigosos, exigindo protocolos de barreira muito mais rígidos.
Doenças em Foco: Patógenos que Rondam o seu Consultório
A identificação precoce de patologias respiratórias é o pilar da prevenção.
Assim, algumas condições merecem destaque absoluto no cenário atual:
Sinusite Aguda
Frequentemente subestimada, a sinusite em fase purulenta é uma fonte rica de bactérias e vírus.
Durante o procedimento odontológico, a vibração dos instrumentos e a pressão do spray podem facilitar a drenagem de secreções dos seios maxilares para a orofaringe, onde são imediatamente lançadas contra a face do profissional.
Tuberculose
Com o aumento da vulnerabilidade imunológica da população, a tuberculose mantém-se como um risco latente.
O sinal de alerta é a tosse persistente por mais de três semanas, muitas vezes acompanhada de sudorese noturna. A carga em aerossóis odontológicos é extremamente infectante.
Influenza e COVID-19
As variantes de 2026 apresentam alta taxa de escape vacinal. Sintomas como febre súbita, mialgia e coriza devem ser tratados como impeditivos para o atendimento eletivo, dado o potencial de contaminação cruzada em larga escala dentro da estrutura clínica.
Proteção Respiratória: A Supremacia das Máscaras N95/PFF2
No ambiente saturado de aerossóis, a máscara cirúrgica convencional é insuficiente.
A proteção efetiva exige o uso de respiradores de alta eficiência, como as máscaras N95 ou PFF2.
Estes dispositivos são projetados para filtrar pelo menos 95% das partículas transportadas pelo ar, incluindo os núcleos de gotículas que carregam vírus.
É fundamental que o profissional realize o teste de vedação a cada colocação, garantindo que não haja escape de ar pelas laterais, o que anularia a proteção contra os patógenos dos aerossóis durante o preparo cavitário ou profilaxia.
Guia de triagem no consultório odontológico
A triagem eficiente começa antes mesmo do paciente entrar na clínica. Este protocolo visa identificar o risco e interromper a cadeia de transmissão na recepção.
Questionário Pré Consulta (Aplicado via WhatsApp ou Telefone 24h antes)
Você apresentou febre, calafrios ou dores no corpo nas últimas 48 horas?
Está com tosse, dor de garganta ou dificuldade para respirar?
Apresenta secreção nasal intensa ou dor na região dos seios da face (maçãs do rosto/testa)?
Teve contato próximo com alguém diagnosticado com Influenza, COVID-19 ou Tuberculose recentemente?
(Para pacientes crônicos) Houve piora na sua falta de ar ou uso de bombinhas de resgate nos últimos dias?
Fluxo de Decisão Clínica
Risco Baixo
Paciente assintomático. Proceder com atendimento utilizando EPIs padrão e bochecho pré-operatório.
Risco Moderado
Sintomas alérgicos leves ou sinusite crônica controlada. Atender apenas se necessário, utilizando obrigatoriamente isolamento absoluto e sucção de alta potência.
Risco Alto
Febre, tosse produtiva, suspeita de infecção viral aguda ou tuberculose.
Adiar o atendimento eletivo por 7 a 14 dias ou até a remissão total dos sintomas. Em casos de urgência inadiável, utilizar paramentação completa nível 3 e sala com pressão negativa (se disponível).
Orientações para a Recepção
A equipe de recepção deve estar treinada para observar sinais visuais (palidez, cansaço ao falar, tosse).
Deve-se disponibilizar álcool em gel 70% e máscaras cirúrgicas para todos os pacientes que apresentarem qualquer sintoma respiratório leve ao chegar, mantendo o distanciamento social na sala de espera.
Checklist de Verificação Final
Questionário de triagem respondido e arquivado.
Temperatura aferida na entrada (limite de 37,5°C).
Higienização das mãos do paciente confirmada.
Verificação da vedação da máscara N95 do profissional.
Janelas abertas ou purificador de ar HEPA ligado.




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