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  • Foto do escritor PAULO ROSSETTI

“Criando pacientes que não existem”: um alerta muito além das Desordens Temporomandibulares


Congresso IN2024


Na semana passada, um dos nossos colegas de profissão, @mcalamita, postou um aviso em seu Instagram. Na verdade, uma recomendação de leitura. É um artigo escrito por professores que trabalham há muito tempo (Greene, Manfredini, Ohrbach) no campo do Diagnóstico das DTMs, falando sobre como novos dispositivos tecnológicos muitas vezes estão “criando pacientes que não existem”.


A problemática está no diagnóstico, indiscutivelmente. Diagnóstico é treinamento, tempo, dedicação.


Se você teve essa disciplina (Desordens Temporomandibulares) na sua graduação (geralmente na área de Oclusão), sabe que o diagnóstico é um processo longo e que precisa da supervisão de gente experiente na localização de “possíveis sinais e sintomas” articulares. Afinal, a ATM possui um disco, uma cápsula, e ligamentos que a envolvem. Ainda, estudos anatômicos mostram muitas vezes que um dos ventres (ou chame de cabeça, se quiser) do músculo pterigoideo lateral se encontra “costurado” à porção anterior do disco. Um detalhe final: existe uma substância viscoelástica entre os compartimentos superior e inferior do disco articular, que evita o atrito direto do disco contra o teto da cavidade articular.


A maioria dos exames, se não contarmos com a palpação muscular/articular, é indireta. Estalidos, cliques, ruídos, dificuldade de abertura/fechamento e na movimentação lateral muitas vezes são o suficiente para colocarmos uma placa oclusal miorrelaxante ou protrusiva.


Um exemplo bem prático: tente fazer uma tese sobre a relação bruxismo do sono e dor. Com muita sorte, você conseguirá utilizar exames de polisomnografia (basicamente, são eletrodos de superfície que captam a atividade muscular durante o sono). Problema: depois de selecionar uma “mini comunidade” de pacientes, na véspera dos exames, alguns passarão da fase de “bruxismo ativo” para o “bruxismo não ativo”. Imaginem se os eletrodos fossem colocados nessa situação? Qual seria a qualidade do meu diagnóstico?


Mesmo assim, conforme o artigo, somos “provocados” para acreditar em coisas que não existem. Uma frase interesse sobre o aspecto da doença “subclínica” da ATM citada nesse trabalho e traduzida livremente aqui: “...na área médica...a maioria dos problemas ortopédicos é “relatada”, e não descoberta...e assim deveria ser em nossa área.” Por acaso, Isaac Newton “descobriu” ou “relatou” a “lei da gravidade”? Ciência é observação meticulosa.

Outro ponto interessante (e que realmente pode não ser o seu dia a dia) está nos conceitos de sensibilidade e especificidade. Ou seja, na quantidade de falso-positivos e falso-negativos que esses aparelhos são capazes de mostrar. Não é uma estatística complicada. Com certeza, muitos aqui estão familiarizados porque fizeram teste PCR para COVID-19.


Se todo novo dispositivo usado em Odontologia fosse confrontado com o modelo gold-standard ou com o que existisse de mais confiável, muitos nem seriam colocados precocemente no mercado. Às vezes, o veículo é bonito por fora, mas em termos de desempenho...


Traduzindo: você tem uma régua plástica, uma régua metálica, e um paquímetro para medir o tamanho do espaço edêntulo entre dois dentes no seu modelo de gesso. Você poderia utilizar quaisquer dos dispositivos acima? A quantidade de erro importaria?


Quais dos instrumentos acima teria maior precisão? E se fossem as peças do motor do seu automóvel ou mesmo as dimensões do implante dentário que o seu paciente usa? São fatores onde o “controle do erro” é mil vezes mais sensível.

A ATM não é o seu implante dentário e nem o motor do seu carro, mas ela é uma “máquina biológica”, e como tal, possui comportamentos ímpares e difíceis de serem diagnosticados.


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