Dor de dente aumenta o risco de Alzheimer? Entenda (e acalme-se)
- Paulo Henrique Orlato Rossetti

- há 7 horas
- 4 min de leitura

Calma.
Não sou daqueles que gostam de ver o circo pegar fogo.
Mas a informação deste post está publicada numa revista de grande tradição na comunidade científica odontológica.
Publicada significa que foi revisada por pares, passou pelo editor da revista, sofreu correções e finalmente ficou perto dos 5% de erros (flaws) que todos os artigos possuem.
Voltando: uma leitura apressada fatalmente termina em conclusões apressadas, especialmente quando não é a estatística do dia a dia (média e desvio padrão, por exemplo).
A pergunta central: a dor de dente é apenas um problema local — ou pode sinalizar pior saúde geral, inflamação sistêmica e maior vulnerabilidade neurológica?
O Estudo do UK Biobank sobre dor de dente e Alzheimer: como foi feito
Um estudo com dados do UK Biobank acompanhou cerca de 490 mil pessoas sem Alzheimer no início por aproximadamente 14 anos.
Esse desenho de investigação (chama-se coorte porque eram os grupos que marchavam em conjunto nas guerras) é útil porque ajuda a estabelecer temporalidade: primeiro o relato de dor, depois o desfecho (diagnóstico de doença de Alzheimer em registros de saúde).
Por que o desenho de coorte importa?
Como os participantes são seguidos ao longo do tempo, o estudo reduz a chance de interpretar um evento tardio (Alzheimer) como “causando” a exposição medida antes.
Ainda assim, isso não elimina confundimento nem garante uma relação de causalidade.
Quais dores orais foram avaliadas (dor de dente e gengiva dolorida)
A exposição foi baseada em autorrelato em questionários, principalmente:
dor de dente
gengivas doloridas
O artigo também avalia subgrupos (dor de dente apenas, gengivas doloridas apenas, e ambas).
Isso descreve sintomas, não um diagnóstico odontológico detalhado (como pulpite, abscesso, trinca, ou hipersensibilidade.).
O que não foi medido clinicamente no Biobank
Não há, como regra, um exame odontológico padronizado com a “causa” da dor e também não existe um protocolo típico de dor orofacial com palpação sistemática da musculatura mastigatória e critérios formais (como DC/TMD) para separar dor odontogênica de dor muscular/ATM.
Resultados do estudo: dor oral e maior risco relativo de Alzheimer
Os autores observaram que participantes com dor oral (dor de dente e/ou gengivas doloridas) apresentaram maior risco relativo de diagnóstico de Alzheimer em análises ajustadas por múltiplos fatores.
Além disso, o estudo descreve essa associação com pior desempenho em testes de cognição e algumas diferenças em neuroimagem em subamostras, o que sugere um padrão convergente dentro desse banco de dados.
Risco relativo vs risco absoluto: como interpretar corretamente
Mesmo quando um aumento relativo é estatisticamente significativo, o Alzheimer pode ser relativamente raro em parte do seguimento.
Por isso, um HR acima de 1 pode corresponder a uma mudança absoluta pequena dependendo da idade, tempo de acompanhamento e risco basal de cada pessoa.
Dor de dente é neuroinflamação? Hipóteses e limites
Dor de dente não é sinônimo de neuroinflamação. Na maioria das vezes, ela reflete inflamação/infeção local e ativação do sistema trigeminal (a via da dor facial).
A conexão com Alzheimer surge como hipótese: dor persistente e processos inflamatórios periféricos podem se associar a sinalização imune e a estados pró inflamatórios sistêmicos que, ao longo do tempo, poderiam influenciar o SNC.
O caminho biológico mais plausível (em termos gerais)
Em linhas gerais, a hipótese envolve:
inflamação periférica/dor → mediadores inflamatórios e sinalização imune → possível impacto neuroimune (por exemplo, microglia) e em circuitos vulneráveis.
O estudo ajuda a levantar essa possibilidade, mas não prova que “dor de dente causa neuroinflamação cerebral”.
Dor de dente autorrelatada pode misturar causas diferentes
Um ponto clínico relevante: “dor de dente” relatada em questionário pode incluir desde pulpite até dor referida muscular/ATM.
Essa mistura pode diluir associações ou dificultar a interpretação do mecanismo.
Força estatística do estudo: por que a amostra grande dá robustez
A potência estatística é um grande ponto porque combina:
amostra muito grande,
seguimento longo,
capacidade de detectar efeitos modestos com boa precisão.
O que potência alta resolve (e o que não resolve)
Ela melhora a chance de detectar um sinal real e reduz incerteza estatística, mas não elimina problemas de medida (autorrelato) nem o risco de confundimento residual.
Limitações e validade: o que dá para concluir com segurança
O estudo tem boa validade para associação populacional, mas a inferência causal é limitada por fatores típicos de coortes observacionais com autorrelato.
Classificação errônea da exposição (dor de dente)
Sem exame clínico, não é possível garantir que todos os casos de “dor de dente” sejam realmente dor odontogênica, nem distinguir dor aguda, crônica ou recorrente.
Confundimento residual (principal ameaça)
Dor de dente pode ser marcador de menor acesso a cuidado odontológico, pior condição socioeconômica, hábitos de saúde, sono e saúde mental — e esses fatores também se ligam ao risco de demência.
Diagnóstico de Alzheimer por registros
O desfecho vem de códigos em registros de saúde, o que pode trazer sub diagnóstico e erros de classificação entre Alzheimer e outras demências.
Causalidade reversa
Mudanças iniciais de cognição podem piorar o autocuidado e saúde bucal, aumentando dor e infecções. Isso pode fazer a dor parecer causa quando pode ser um marcador do processo em curso.
Conclusão: dor de dente causa Alzheimer ou é um marcador de risco?
A leitura mais responsável é: o estudo sustenta uma associação entre dor oral e risco de Alzheimer, com grande força estatística, mas não prova causalidade.
Dor de dente/dor oral pode funcionar como marcador de risco e de vulnerabilidade (biológica e social).
Para avançar, são necessários estudos com:
exame odontológico (causa e gravidade),
fenotipagem de dor orofacial (incluindo musculatura/ATM),
desfechos com avaliação clínica e/ou biomarcadores.


Comentários