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  • Foto do escritor PAULO ROSSETTI

Incompreensões nas ciências de saúde - parte 2


A mágica só funciona por não compreendermos a cortina de fumaça na realidade.
A mágica só funciona por não compreendermos a cortina de fumaça na realidade.

Mágica é a "ciência da ilusão". Um bom mágico precisa ser um bom "cientista". Para que o "atravessar de paredes" seja real, grandes mestras e mestres treinam muito, erram bastante, consertam suas deficiências, e finalmente triunfam em seus shows. Enquanto a plateia se diverte com a fumaça e espelhos, o ato está consumado. E ninguém perceberá.


A distorção da realidade pelo ilusionismo gera incompreensão.


Esse fenômeno também existe na interpretação científica apressada: pode ser inconsciente, quando a pessoa se debruça sobre o fato e toma uma interpretação diferente por ter um conhecimento incompleto.


Ou pode ser consciente mesmo, quando a pessoa encontra uma maneira de escapar do "curso natural" do método científico para criar uma nova frente, que fatalmente lhe renderá uma horda de seguidores (destreinados em análise lógica).


O "fato novo" será uma conclusão errônea derivada do fato original, mas totalmente desconexa. Uma afronta ao método cartesiano.

 

Para entendermos como as coisas podem começar de um jeito, mas serem propagadas de outro:


em 2019, um trabalho científico foi publicado com o seguinte título, aqui em tradução literal: "Efeito da radiação do telefone celular na osseointegração do implante dentário: avaliação histológica preliminar em coelhos".


Um pente fino (adiantando, de lá para cá, nada realizado neste assunto até 2024), revela que os efeitos da radiofrequência foram demonstrados nos dois grupos de teste (no primeiro grupo, 8 horas por dia com o celular em modo speech/ 16 horas por dia em standby, e no segundo grupo, 24 horas com o celular em standby continuamente) comparado ao grupo controle (sem exposição à radiofrequência), num tempo total de 3 meses.


A lista de perguntas que precisamos fazer:


  • Os "efeitos" foram demonstrados em qual tecido?

  • Quais são os "números" que mostram esse efeito?

  • O "efeito" demonstrado é significativo ao ponto de mudarmos a nossa prática clínica?



E as respostas foram (qualitativas):


  • a análise histológica mostrou nos 3 grupos ausência de mudanças degenerativas e necróticas

  • a análise histológica mostrou nos 3 grupos ausência de fibrose e inflamação

  • no grupo 1 (controle), a nova formação óssea foi considerada regular

  • no grupo 2 (teste), a nova formação óssea foi regular em 2 tíbias e 2 fêmures; demais locais, algumas áreas não cobertas com osso na superfície do implante

  • no grupo 3 (teste), a nova formação óssea foi regular em 4 tíbias e 2 fêmures: demais locais, algumas áreas não cobertas com osso na superfície do implante


E as repostas foram (quantitativas):


  • BIC no grupo 1: 34%

  • BIC no grupo 2: 32%

  • BIC no grupo 3: 32%

  • sem diferença no BIC entre os grupos 2 e 3


Pontos importantes:

  • há uma menção sobre o cálculo de amostra, baseado em outro trabalho que, ao ser analisado, não explica matematicamente como chegou ao número dos 12 coelhos.

  • os coelhos podem ter recebido mais radiação por área, comparados aos humanos, acelerando os efeitos observados

  • mais (muitos, melhor dizendo) estudos são necessários em humanos para realmente verificarmos se (e como) a radiofrequência realmente afetaria a osseointegração.



Então, de 2019 para cá, a mídia não especializada propôs, a partir deste estudo (apenas um e nada mais), que o "implante de titânio seria como uma antena, esquentando em função da radiação."


Mas isso realmente foi "comprovado" pelo estudo acima?

De onde vem a ideia de que o implante de titânio seria uma antena, e ainda esquentaria?



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