Lendo um artigo científico - estatística - parte 6 - o que eu preciso saber primeiro?
- Paulo Rossetti

- 6 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de ago.

Se você "tropeçou" aqui sem saber onde está, volte à parte 1.
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Entrevista, levantamento epidemiológico, enquete, pesquisa de satisfação: quantas vezes você já ouviu esses termos?
Todas as palavras acima podem ser reunidas, do ponto de vista científico, em uma única expressão: transversal.
Na língua inglesa, é o que chamamos de "cross-sectional"
Atenção: não confundir com "cross-over" que é um desenho experimental onde temos grupos que recebem tratamentos iguais, mas em momentos diferentes.
Explico: na situação de cross-over, por exemplo, temos dois grupos, ambos possuem dois implantes na mandíbula e uma overdenture. Como é possível usarmos encaixes tipo bola ou barra, um dos grupos usa primeiro os encaixes bola, enquanto o outro grupo usará os encaixes barra.
Depois de um período de tempo pré-determinado, os tratamentos se invertem. O grupo com encaixes tipo bola passa a usar barra, e o grupo com barra passará a usar encaixes tipo bola.
Voltando à modalidade estudo transversal, em termos bem simples, na prática:
Toda vez que o funcionário do IBGE passar na sua casa, no seu bairro, na sua cidade, ele(a) estarão fazendo um levantamento transversal para verificar a situação econômica. Por isso, é importante que as suas respostas sejam precisas, ou não saberemos o estado atual e como planejar melhor o futuro do nosso país.
Nos trabalhos científicos, toda vez que detectarmos uma situação de levantamento transversal, será preciso interpretar um tipo de estatística conhecida como "estatística de diagnóstico", ou "estatística de risco".
Aqui, pelo menos duas siglas são frequentes: OR, RR
OR = significa Odds Ratio
RR = significa Risk Ratio ou Relative Risk
Em resumo, estamos conversando sobre a "chance" do fato em estudo ocorrer ou não.
Do ponto de vista clínico, ambas os números falam sobre a probabilidade de um evento ocorrer quando estamos "expostos". Não necessariamente significam que irão ocorrer em 100% dos casos.
Assim, quantos pacientes você já viu que são tabagistas veteranos e não têm suas gengivas afetadas pela nicotina do cigarro?
Nenhum um milímetro sequer de perda óssea?
Por isso, dizemos que o cigarro é "fator de risco", da mesma que a hemoglobina glicada acima dos 7%, dos níveis de glicemia, e assim por diante.
E para isso serve o aconselhamento, no melhor estilo "faça isso", "não faça aquilo".
O estilo de apresentação dos resultados é clássico.
Para nós, do ponto de vista clínico, é interessante quando tanto os valores de OR quanto os de RR ficam abaixo de 1, ou seja, a chance ou risco de ocorrer será pequena. Se tanto o valor de OR quanto de RR for 1, não há diferença entre os grupos.
Entretanto, se tanto o valor de OR quanto de RR ficarem acima de 1, temos chance ou risco aumentado. Por exemplo, quando os artigos científicos relatam que a chance de perder um implante dentário pode ser 2,5 vezes maior nos pacientes tabagistas, comparados aos não tabagistas.
Vamos imaginar uma situação onde temos um grupo de pessoas que vai receber um remédio com princípio ativo, enquanto o outro grupo receberá um placebo.
Calculando a estatística do Odds Ratio:
Transcorrido o procedimento, e considerando que nossos pacientes estão divididos em dois grupos de 50 pessoas cada, e seguiram corretamente as receitas, fazemos a pergunta abaixo:
Qual a chance dos pacientes terem dor após o uso desses remédios?
Muita atenção à pergunta, porque ela determina a ordem de apresentação dos dados:
grupo do medicamento = 5 com dor / 45 sem dor = (0,11)
grupo do placebo = 42 com dor / 8 sem dor = (5,25)
Para descobrir o Odds Ratio, basta dividir (0,11) por (5,25) = 0,02
A interpretação desse resultado é escrita assim: a chance dos pacientes terem dor é 0,02 vezes (OR=0,02) quando tomam o remédio, comparados aos que tomam o placebo. Ou seja, é muito pequena. Então, o remédio tem desempenho melhor que o placebo. O remédio tem efeito protetor.
O computador também mostrará o valor p, que neste caso é < 0,0001 . Consideravelmente menor do que o nível de significância (0,05).
Calculando a estatística do Risk Ratio:
Em outras ocasiões, os trabalhos contêm o RR (Risk Ratio).
Para fazer o seu cálculo, vamos considerar a mesma situação acima, fazendo uma pequena troca:
grupo do medicamento = 5 com dor / 50 total = (0,10)
grupo do placebo = 42 com dor / 50 total = (0,84)
Para descobrir o Risk Ratio, basta dividir (0,10) por (0,84) = 0,11
A interpretação desse resultado pode estar escrita assim: o risco dos pacientes terem dor (RR=0,11) é de 11% se tomarem o remédio, comparados aos que tomaram o placebo. Pelos dados acima, veja que o risco de ter dor só no grupo do medicamento é 10%, mas o risco de ter dor no grupo que tomou placebo é 84%. Lógico, faz sentido tomar o remédio.
O computador também mostrará o valor p, que neste caso é < 0,0001 . Consideravelmente menor do que o nível de significância (0,05).
Tanto o Odds Ratio quanto o Risk Ratio são duas maneiras diferentes de falar sobre o mesmo tópico.
Abaixo, o link da calculadora gratuita:
Bons trabalhos! Boas leituras!



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