Dente no chip: o que é isso?


Existe “dente no chip"? Sim.
E o campo está crescendo rápido.
Calma, seu dente não será "plugado" na tomada da parede.
Suspeito também que você ainda não saiba o que é um "órgão-em-chip".
Vem comigo que eu explico.
Os testes em animais finalmente acabaram?
Camundongos, ratos e coelhos, e todos aqueles outros animais fofinhos que seus filhos amam de paixão na vida e nos desenhos animados finalmente terão um pouco de sossego?
Todo mundo sabe: um remédio passa por testagem nesses animais até chegar à prateleira da farmácia. Mas nem sempre o que funciona no organismo de um roedor tem o mesmo efeito no ser humano.
Nesse cenário que surge uma tecnologia que promete reescrever essa história: os organ-on-a-chip (órgãos-em-chip).
São pequenos dispositivos que recriam a estrutura e a fisiologia de órgãos humanos usando células reais.
O dente também é um órgão: o que o FDA decidiu?
O dente também é um órgão do corpo humano.
Esse assunto é tão importante que até o FDA (ANVISA dos EUA; FDA Modernization Act 2.0, 29 de dezembro de 2022) mudou a lei para acomodar o órgão-em-chip:
testes em animais foram substituídos por métodos não clínicos.
os testes animais deixaram de ser obrigatórios, sem serem proibidos.
empresas podem submeter dados de órgão-em-chip em pedidos de novos medicamentos
a lei não aboliu os animais da noite para o dia.
Dente no chip? Mire no coração
O alvo principal é a polpa dentária, o tecido vascularizado e inervado no coração do dente, composto por fibroblastos, odontoblastos, células-tronco mesenquimais, células neuronais, endoteliais e imunes.
A interação entre essas populações é essencial para a homeostase da polpa e sua regeneração após cáries e traumas.
Quais são as aplicações clínicas concretas?
teste de materiais odontológicos: adesivos dentinários, cimentos e materiais restauradores podem ser avaliados quanto à citotoxicidade trans dentinária antes de chegar ao paciente — algo que os modelos 2D não capturam.
endodontia personalizada: terapias pulpares testadas em contexto humano, paciente a paciente, abrindo caminho para tratamentos individualizados.
regeneração pulpar: plataformas para estudar como a polpa se regenera após cárie ou trauma, incluindo o papel das células-tronco da papila apical (SCAPs).
toxicologia oral: avaliação de xenobióticos que entram em contato com a cavidade bucal — materiais dentários, produtos de higiene, fármacos e tabaco.
Dente no chip: o que a literatura diz?
O artigo seminal (2020): França, Tahayeri, Rodrigues, Ferracane e Bertassoni publicaram no Lab Chip o primeiro "dente no chip": um sistema micro fisiológico que mimetiza a interface biológica entre o dente e os biomateriais, permitindo acompanhar em tempo real a atividade enzimática na camada híbrida formada por adesivos dentinários.
A consolidação (2021-2022): o grupo de Bertassoni (OHSU, EUA) publicou o "Pulp-Dentin Complex-on-a-Chip" , estudando interações entre biomateriais, biofilme e polpa. Em paralelo, Hu et al. (Dental Materials, 2022) usaram um modelo de "dente no chip" para avaliar a citotoxicidade do diamino fluoreto de prata em células da polpa sob fluxo, com barreira de dentina real.
A nova geração (2025-2026): o grupo de Mitsiadis (Zurique) e Rasponi (Milão) apresentou no Advanced Healthcare Materials um dispositivo que cocultiva células-tronco da polpa, odontoblastos, células endoteliais e neurônios trigeminais, recriando redes vasculares complexas, nichos perivasculares de células-tronco e a interface odontoblasto-dentina.
No Chile, o grupo de Bucchi publicou no JoVE um protocolo passo a passo usando um disco de dentina humana real empilhado verticalmente no dispositivo.
Uma revisão sistemática no Annals of Biomedical Engineering consolidou o estado da arte. Mitsiadis e Pagella também publicaram no Journal of Endodontics uma revisão dedicada aos dispositivos "polpa dentária na polpa".
Embora o campo dental esteja mais atrasado que em outras áreas, a motivação é ainda mais forte em Odontologia: os modelos animais de roedor não traduzem bem a biologia dentária humana — esmalte e polpa diferem bastante entre espécies.
Os chips com células e tecidos humanos oferecem exatamente o que faltava: um contexto com testes fisiologicamente relevantes.
Além do dente no chip: existe "organoide dentário"?
Um organoide é uma cópia 3D, pequena e mais simples do que o órgão de origem. Imagem colocar uma boca completa de dentes numa caixinha e levar para todos os cantos.
Além dos dentes nos chips, a tecnologia que cerca os organoides dentários avança rapidamente.
Para se ter ideia, o grupo de Hermans, Bronckaers e Vankelecom (Bélgica) já estabeleceu organoides de molares e incisivos e organoides de tecido dentário humano.
Diferente da popla, o grande alvo é o esmalte (a capa dura de proteção): como os ameloblastos se perdem após a erupção dentária, o esmalte humano, uma vez comprometido/fraturado, não se regenera biologicamente.
Assim, nossos dentes ficam bem susceptíveis aos microrganismos e fluídos ácidos.
Em 2023, Alghadeer et al. geraram esmalte humano a partir de organoides, e em 2026 Patni et al. demonstraram a maturação de ameloblastos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC) com formação de tecido tipo esmalte, abrindo caminho para o "reparo biológico" do esmalte e o estudo de doenças como a amelogênese imperfeita.
O passo final: a revisão de Zhong et al.(2026) propõe justamente a integração das duas linhas: a complexidade tridimensional dos organoides combinada ao controle fisiológico dos chips.
Leia mais sobre:




Comentários