Implantes dentários na zona estética: a experiência de Zurique
- Paulo Rossetti

- há 4 dias
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Atualizado: há 5 horas

A odontologia implantar enfrenta um dilema clássico. Os ensaios clínicos randomizados (RCTs) continuam sendo o padrão-ouro da evidência, mas acontecem em ambientes controlados, com critérios rígidos que nem sempre refletem o consultório real.
Entretanto, um estudo feito pela Universidade de Zurique, resolveu olhar para o outro lado: os dados reais da prática clínica.
Os pesquisadores analisaram 2.575 pacientes e 2.945 implantes colocados na zona estética maxilar ao longo de 15 anos (2011–2025).
O objetivo? Entender como as estratégias de tratamento evoluem na prática e o que isso exige do profissional.
Os resultados revelam três grandes tendências e, com elas, um conjunto claro de competências que dentistas precisam desenvolver.
O que o registro clínico revela sobre os implantes na zona estética?
O registro de implantes da Clínica de Odontologia Reconstrutiva de Zurique nasceu em 2002 como ferramenta de garantia de qualidade. Todos os procedimentos foram realizados por docentes experientes e residentes supervisionados, com dados coletados de forma prospectiva e padronizada.
A análise incluiu todos os pacientes que precisaram de implantes na região estética (entre os dentes 15 e 25), independentemente do sistema ou do protocolo cirúrgico.
Os pesquisadores avaliaram o sítio do implante, comprimento, diâmetro, método cirúrgico e momento da instalação.
Tendência 1: a cirurgia digital assumiu o comando
A mudança mais expressiva do período foi a adoção da cirurgia implantar assistida por computador (CAIS). No início (2011–2015), a cirurgia à mão livre dominava, respondendo por 77% dos casos. A partir de 2016, essa realidade se inverteu.
Nos anos recentes (2021–2025), a CAIS tornou-se a abordagem principal, alcançando 75,7% dos procedimentos — um aumento estatisticamente significativo. A cirurgia guiada deixou de ser novidade e virou padrão.
a competência que isso exige: dentistas precisam dominar o planejamento virtual 3D — leitura de tomografia computadorizada de feixe cônico, posicionamento 3D do implante e geração de guias cirúrgicos. O fluxo digital (escaneamento intraoral, impressão 3D, integração de softwares) deixa de ser opcional e vira etapa obrigatória do planejamento.
Tendência 2: instalações mais precoces, mas com cautela
O protocolo tardio (Tipo 4) permaneceu o mais utilizado em todo o período, respondendo por cerca de 71% dos casos. Porém, a instalação imediata (Tipo 1) mostrou crescimento gradual, subindo de 4,2% (2011–2015) para 9,3% (2021–2025).
Esse aumento foi significativo, mas modesto. A leitura é clara: a adoção de protocolos mais precoces acontece de forma gradual e criteriosa, não como substituição abrupta de paradigmas.
O Tipo 3 (precoce/tardio) foi mais comum nos anos iniciais, enquanto o Tipo 2 (precoce) permaneceu relativamente estável.
a competência que isso exige: dentistas precisam desenvolver tomada de decisão clínica individualizada — saber selecionar o protocolo certo para cada sítio, avaliando anatomia, risco estético e expectativas do paciente, em vez de aplicar um protocolo único.
Tendência 3: menos regeneração, mais preservação
A regeneração óssea guiada simultânea (GBR) caiu de forma consistente. No período (2011–2015), 70,9% dos implantes eram colocados com GBR simultânea. Nos anos recentes, esse número caiu para 44,4% — praticamente metade dos casos.
Essa queda não representa uma contradição, mas uma evolução de indicação. Com a crescente adoção da preservação do rebordo alveolar, a necessidade de reconstruções extensas diminuiu.
Nos protocolos imediatos mais recentes, a GBR voltou a aparecer, mas com finalidade diferente: manejar os espaços peri-implantares e preservar o contorno.
a competência que isso exige: dentistas precisam dominar a preservação do rebordo alveolar e o manejo do espaço peri-implantar (jumping gap) — saber quando regenerar e com qual finalidade, distinguindo defeito real de espaço esperado.
A transição dos biomateriais
Entre os casos que exigiram regeneração, houve uma troca clara de material. O uso de osso bovino desproteinizado (DBBM) caiu de 45,3% para 15,8%. Já o DBBM associado a colágeno (DBBMC) saltou de 17,5% para 49,5%.
Essa transição reflete a mudança de filosofia. O DBBM puro era usado em reconstruções extensas. O DBBMC, por ter melhor manuseio graças ao colágeno, tornou-se preferido nos protocolos recentes, especialmente para preservar contorno.
a competência que isso exige: dentistas precisam dominar a seleção de biomateriais — entender as diferenças entre DBBM, DBBMC e outros materiais, e saber quando usar cada um, além de diagnosticar corretamente os defeitos (deiscência, fenestração, intraósseo e combinado).
Diferenças anatômicas entre incisivos e pré-molares
O estudo também revelou diferenças relevantes entre as regiões. Os implantes de diâmetro regular foram mais frequentes em pré-molares, enquanto os implantes curtos foram relativamente mais usados nessa região.
Isso reflete limitações anatômicas: o espaço mesiodistal reduzido dos incisivos favorece implantes estreitos, enquanto a proximidade do seio maxilar nos pré-molares limita a altura óssea.
Os incisivos apresentaram maior associação com protocolos imediatos e maior necessidade de GBR simultânea, devido à placa óssea vestibular fina. Entre os defeitos que exigiram regeneração, o defeito de contorno (deiscência) foi o mais comum (54%).
a competência que isso exige: dentistas precisam de raciocínio anatômico por sítio — entender que cada região tem demandas diferentes e adaptar a estratégia cirúrgica e regenerativa a essa realidade.
O caminho prático
Diante desses dados, dentistas que desejem acompanhar a evolução precisam de um plano de capacitação claro. As competências se organizam em quatro domínios:
1. Competências digitais: planejamento virtual 3D, fluxo digital integrado, leitura de tomografia. É a prioridade máxima, pois a CAIS já é o padrão em 75,7% dos casos.
2. Competências em regeneração: preservação do rebordo alveolar, manejo do jumping gap, seleção de biomateriais e diagnóstico de defeitos. Essencial para decidir quando e como regenerar.
3. Competências em decisão clínica: seleção de protocolo por sítio, decisão individualizada e leitura crítica de evidência (entender a diferença entre eficácia de RCT e prática real de registro).
4. Competências em comunicação e gestão: explicar o plano ao paciente, gerir expectativas estéticas e investir em educação continuada.

Paulo Rossetti
Cirurgião-dentista CROSP 73.025, Mestre e Doutor em Reabilitação Oral, FOB-USP. Editor científico, revista ImplantNews.
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