Migração do implante dentário: isso é possível?


Não existe uma casuística robusta, mas surgem os primeiros relatos de migrações de implantes dentários e que não perderam a osseointegração.
Em termos simples, imagine uma tecla de piano que ficou presa para baixo e você não consegue mais aciona-la sem chamar o conserto. No piano acústico, o som continua. No piano digital, o som vai sumir.
Por analogia, a boca é o piano acústico; ou seja, a posição do implante, ou melhor, da coroa protética, pede correção.
Dentes x implantes: necessidade de controle eterno?
Nossos dentes migram, ou melhor, mudam de posição? Sim.
E por diversos motivos, especialmente nos casos de mobilidade aumentada, sobrecarga oclusal, doença periodontal ativa, perda óssea excessiva.
Basta uma radiografia e o diagnóstico está feito.
Além disso, o dente sai verticalmente de sua posição (extrusão)? Sim. Especialmente quando está ao lado de um implante dentário. Não porque “brigaram”, mas porque a extrusão dentária é fisiológica e contínua.
A presença do implante ao lado do dente natural só ressalta esse fenômeno, algo que a gente jamais perceberia. A abertura do ponto de contato também é um fato registrado ao longo dos anos.
E o implante dentário? Será que pode migrar?
Parece absurdo, mas estamos chegando à constatação: a resposta por enquanto é um belo sim, e por motivos diferentes.
Mais atenção: não estamos falando de migração para o seio maxilar, espaço pterigoide, espaço submandibular ou outras regiões anatômicas distintas já descritas na literatura.
Como um implante dentário pode migrar sem perder a osseointegração? Existiria aposição/reabsorção óssea ao redor de implante dentário similar ao que acontece num dente natural, sob força não fisiológica constante?
Abaixo, os relatos mais recentes. E por serem casos clínicos isolados, não têm relação de causa e efeito, mas são de grande interesse clínico.
Migração espontânea significativa em osso de baixa densidade: 8 anos de acompanhamento
Tsai et al. https://doi.org/10.1002/cap.70072
No primeiro relato, uma mulher de 53 anos de idade recebe um implante após a elevação do seio maxilar com enxertia de osso particulado, sendo estabilizado com 35Ncm de torque e ISQ 63.
Após a comparação dos registros digitais (4 meses, 8 meses, 8 anos), o implante havia mudado 12 graus nos primeiros 4 meses e um pilar protético de 15 graus foi usado para corrigir a posição da prótese.
A suposição é de que o implante, já em osso de baixa densidade, migrou antes da maturação do enxerto, mas não impediu uma osseointegração bem-sucedida. O valor ISQ final ficou em 68.
Deslocamento do implante dentário osseointegrado na região estética vestibular e sem mobilidade: um relato clínico
Xiang et al. https://doi.org/10.1111/jopr.70159
No segundo relato, um homem de 62 anos de idade recebe três implantes na região anterior da maxila com travamento final (torque) de 35Ncm em paralelo à regeneração óssea guiada.
Com o passar dos anos, o implante na posição 21 fica levemente vestibularizado, mas sua coroa protética ainda se encontrava em posição. Treze anos depois, o implante "havia se mudado" um pouco mais para vestibular; entretanto, sem perder sua osseointegração.
Como detectar a migração do implante dentário na clínica?
Tomografia computadorizada de feixe cônico
O primeiro exame, e hoje muito comum, é a tomografia computadorizada de feixe cônico.
A comparação das imagens (cortes transversais) feitas em tempos diferentes podem indicar que os implantes estão “migrando”.
O acesso/custo desse exame, o FOV (field of view, campo de visão), bem como a quantidade de radiação nos dias de hoje têm um controle melhor.
Então, seus pacientes não terão tanta dificuldade em passar por essa etapa.
Sobreposição de arquivos digitalizados
O segundo exame é menos comum porque exige que você quebre a sua rotina e tenha um escâner a sua disposição, ou simplesmente peça socorro ao seu laboratório de prótese.
Todavia, é tão importante quanto o primeiro: consiste na sobreposição dos arquivos digitais dos modelos de gesso.
procure o modelo de gesso que contém os análogos dos implantes dentários
faça você mesmo o escaneamento (ou peça ao laboratório)
desmonte a prótese sobre implantes, realize a transferência dos implantes, crie um segundo modelo com análogos, faça um novo escaneamento
ao final, sobreponha os arquivos pelos implantes que parecem mais estáveis, e compare a posição original com a nova posição do implante dentário suspeito de migração
O controle oclusal é uma excelente opção?
Por fim, precisamos usar as fitas (papel de articulação), especialmente quando nossos pacientes possuem dentes e implantes na mesma arcada ou na arcada antagonista.
as capacidades de intrusão, tanto do dente quanto do implante, sob a força de compressão, são diferentes: os dentes intruem mais e melhor, enquanto os implantes intruem muito menos e pior
o objetivo é proteger as coroas (e os implantes) da sobrecarga
coloque o papel de articulação e peça ao seu paciente para fazer um fechamento leve
as marcas devem aparecem sobre as coroas (superfícies oclusais) dos dentes, mas não sobre as coroas sobre implantes
agora, peça ao seu paciente para apertar firme: as marcas devem aparecem sobre as coroas dos implantes
repita o teste com uma fita de celofane: sob contato leve, a fita deve passar facilmente sobre a coroa implantossuportada.
com o celofane em posição, peça novamente ao seu paciente para apertar; agora, a fita deve ficar presa
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