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Doença periodontal, perdas dentárias futuras, déficits cognitivos

  • Foto do escritor: Paulo Henrique Orlato Rossetti
    Paulo Henrique Orlato Rossetti
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura
Déficits cognitivos: qual é o papel das perdas dentárias?
Déficits cognitivos: qual é o papel das perdas dentárias?

Entendendo a função dos dentes em menos de 1 minuto

 Seres humanos nascem com a possibilidade de duas dentições: uma primária (decídua) e outra secundária (permanente). Embora uma venha depois da outra, com períodos de transição (dentição mista) ambas são importantes nas diversas fases da vida.

 Uma dentição natural no adulto, se contarmos até os segundos molares em ambas as arcadas, tem pelo menos 28 dentes. Os outros quatro são os dentes do siso, que frequentemente não irrompem ou são extraídos.

 Além disso, dentes posteriores são feitos para triturar (moedor), enquanto os dentes anteriores são feitos para cortar (tesoura).

 Ainda, os dentes fornecem o que chamamos de suporte oclusal. Essa sustentação é dada pelos contatos dentários, que são mais fortes na região posterior (molares até os caninos) do que na região anterior (entre os dentes incisivos).

 Assim, as forças que mantêm os dentes da maxila em contato com os da mandíbula são oclusais. As forças que mantêm os dentes em contato apenas dentro da mesma arcada são de natureza proximal (ponto de contato). Nessa equação, ainda existe a ação das bochechas e da língua garantido que o formato das fileiras de dentes seja mantido.

 Pelos motivos acima, quando perdemos uma unidade oclusal, é possível que os dentes posteriores migrem em direção anterior, fechando o espaço.

 Finalmente, existe o detalhe funcional: nossos dentes precisam dos guias de desoclusão (canino, função em grupo) para evitar que forças não ideais sejam colocadas sobre eles, restaurações (amálgama, resina), ou próteses sobre dentes e implantes.

Quando a quantidade de dentes é “menor do que o ideal”

 Ao longo da vida de uma pessoa, é possível perder dentes. Os motivos são variados: cárie, doença periodontal, infiltração, problemas endodônticos, fraturas não reparáveis, traumas avulsivos. 

Por exemplo, os primeiros molares, uni ou bilateralmente, são dentes frequentemente lesionados, daí a Ortodontia (para fechar o espaço) ou a Implantodontia (para reposição da unidade perdida).

Entretanto, é possível que o paciente tenha uma doença periodontal agressiva. Assim, mais dentes entram nessa conta. Se o tratamento for bem-sucedido e a manutenção feita de forma constante, os dentes remanescentes ficam no que chamamos de “estado saudável com suporte periodonto reduzido”.

Um exemplo clássico é ter todos os dentes anteriores e pelo menos, os quatro pré-molares de cada lado na maxila e na mandíbula: 24 dentes.

 As superfícies dos pré-molares possuem uma área superficial menor para trituração. Além disso, teremos um espaço gengival maior livre outrora ocupado pelos dentes molares, influenciando o desempenho mastigatório

 O estágio seguinte: 20 dentes quando perdemos mais um pré-molar de cada lado. Possíveis problemas estéticos surgirão em função da altura da linha do sorriso.

 Desta forma, com os arcos dentários reduzidos, muitos pacientes simplesmente não procuravam tratamento porque se adaptavam ou porque as próteses parciais removíveis (PPRs) de extremidade livre eram desconfortáveis, especialmente aquela região rosa de acrílico que se assentava sobre a mucosa residual.

As perdas dentárias e a doença periodontal

Conforme a classificação mais recente sobre as doenças periodontais e peri-implantares, dentro do estágio da periodontite, há dois caminhos possíveis explicando as perdas dentárias: aquelas incomuns ou as causas pela própria periodontite.

São quatro estágios, sendo que o número de dentes remanescentes é considerado nos estágios III e IV, justamente nos contextos mais severos, conforme a imagem abaixo:

Estágios da Periodontite
Estágios da Periodontite

As perdas dentárias e o suporte oclusal remanescente

 O suporte oclusal remanescente dita o número de dentes antagonistas, conforme a classificação abaixo:

Classificação de Eichner paras as perdas dentárias.
Classificação de Eichner para as perdas dentárias. Modificado de: Nakamura et al. doi: 10.3390/jcm14248939.

Em resumo, a pergunta clínica seria: o quanto do suporte oclusal remanescente é capaz de impedir perdas dentárias futuras?

Por exemplo, um estudo retrospectivo com 225 pessoas mostra que pacientes da categoria B podem perder até 3 dentes ou mais ao longo de 21 anos de acompanhamento quando comparados aos que se encontram na categoria A, mesmo que implantes dentários tenham sido colocados.

 A chance (Odds Ratio) dessa ocorrência é 1,83 vezes maior.

As perdas dentárias e o declínio cognitivo

Vamos colocar o cérebro em questão: desordens cognitivas são uma questão de saúde mental afetando a memória, aprendizado, e a execução de tarefas diária. Nos casos extremos, podem ser representadas pelo Alzheimer ou demência.

Não é de hoje: existe uma forte suspeita que o número de dentes remanescentes está ligado ao declínio cognitivo.

Na revisão sistemática mais recente contendo 20 meta-análises, envolvendo pessoas na faixa dos 50 anos de idade ou mais, os seguintes achados foram publicados em relação à chance (Odds Ratio) de desenvolvimento:

  • em geral, pessoas com periodontite tiveram mais risco de desenvolver todos os tipos de déficits cognitivos do que pessoas sem periodontite. A chance aqui é 1,64 vezes maior.

  • pessoas com periodontite tiveram mais risco de desenvolver demência do que pessoas sem periodontite. A chance aqui é 1,23 vezes maior.

  • pessoas com periodontite tiveram mais risco de desenvolver impedimento cognitivo do que pessoas sem periodontite. A chance aqui é 1,31 vezes maior.

  • pessoas com periodontite tiveram mais risco de desenvolver Alzheimer do que pessoas sem periodontite. A chance aqui é 1,20 vezes maior.

  • pessoas com periodontite tiveram mais risco de desenvolver impedimento cognitivo leve. A chance aqui é 1,98 vezes maior.

 Mesmo que com os dados acima ainda não seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito, a doença periodontal deve ser tratada como um problema de saúde sistêmico, já que seus mecanismos inflamatórios são multifatoriais.

É possível impedir as perdas dentárias?

Com a Odontologia e a Medicina conversando mais, os próximos anos devem ser de grandes descobertas na prevenção das perdas dentárias.

 

Por enquanto, continuamos com a lista básica:

  • reforço na higienização (escovação e fio dental)

  • flúor tópico

  • terapia de suporte periodontal e peri-implantar

  • higiene do sono

  • exercícios físicos e mentais


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