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A Odontologia atual é só implante?

Foto do escritor: Paulo Rossetti
Paulo Rossetti
há 6 horas
4 min de leitura
Odontologia atual não é só implante dentário.
Odontologia atual não é só implante dentário: os novos desafios. Foto. I.A.

Há quem diga que a Odontologia atual foi sequestrada pela Implantodontia.


Esse erro de julgamento desencadeia uma sequência de eventos, primeiro porque custa caro aos dentes, em seguida à oclusão, depois à estética.


Por fim, sem osso residual suficiente, nada resta a não ser regredir ao tratamento convencional sem implantes.

 

O ideal seria, no bom sentido, que a Odontologia tivesse sequestrado a Implantodontia. Aliás, talvez nem seja preciso na atual conjuntura. Depois de anos de trabalho e literatura especializada, diversos pontos estão claros quando falamos desses novos desafios:

 

Periodontite e peri-implantite

 

Na convivência (atenção para essa expressão) de uma dentição natural com implantes dentários, os impactos negativos que se originam de uma gengivite ou periodontite não tratadas costumam se perpetuar ou potencializar a futura peri-implantite e vice-versa.

 

O ponto de atenção é este: sabemos como tratar e reduzir gengivite e periodontite, mas não sabemos nem como tratar e reduzir aa formas graves de peri-implantite.

 

Os efeitos da saúde local e sistêmica

 

É cada vez mais claro que as taxas de manutenção das próteses sobre dentes e implantes são muito suscetíveis às variações na saúde local e sistêmica.

 

Com o avanço da odontologia personalizada, acredita-se que a maioria dos contratempos/intercorrências/patologias pode ser combatida/interceptada pelo diagnóstico precoce na saliva, ajustes na alimentação ácida, aconselhamento psicológico, qualidade do sono, pelos fármacos que controlam o metabolismo, e definitivamente pelos programas de prevenção periodontal e peri-implantar.

 

Além disso, o sistema imune no periodonto e ao redor do implante recupera o seu protagonismo.


Então, vale uma consulta médica, um check-up na sua carteira de vacinação (por exemplo, adultos devem verificar as datas para sarampo e Herpes zoster), vale um banho de sol diário para mobilizar a ativação da vitamina D, vale um momento de paz para nossas cabeças: mais sono bom e menos telas.  

 

Biomecânica: tão falada, tão mal compreendida

 

A dupla dentes/implantes, quer seja em proximidade (adjacentes) ou em oposição (antagonistas) pode sofrer fraturas, desgastes, extrusão compensatória, e recessões gengivais de todos os tipos, particularmente nos dentes com formato triangular.


O problema é que, mesmo diante de uma carga mecânica similar, os comportamentos sempre serão diferentes. E as falhas também.

 

Periodontia corretiva, Periodontia restauradora

 

Falando um pouco mais da Periodontia, o uso das cirurgias de tunelização na região estética da maxila explodiu como opção terapêutica, enquanto reconstruções de maior porte nos setores posteriores têm sido planejadas virtualmente e recebem arcabouços impressos 3D como guias ou receptáculos para os novos biomateriais.

 

Em escala menor, a ROG (regeneração óssea guiada) tradicional ganha musculatura com o uso de novas técnicas regenerativas/digitais no seio maxilar, enquanto o Barbell, a restauração dentoalveolar imediata (RDI), a técnica de Khoury, e o L-PRF geram resultados promissores.

 

Como expõe a literatura mais atual, todas essas tentativas são consideradas reconstruções (recriação de tecidos similares ao periodonto, sem a devolução de características naturais anatômicas e histológicas, com persistência de algum material exógeno nos tecidos recém-formados) e não reparos ou regenerações.

 

A relação entre Periodontia e Dentística Restauradora definitivamente estabelece uma “interface amigável” através das novas resinas e adesivos contemporâneos, com e/ou sem a elevação da margem profunda.

 

Prótese e Periodontia: casamento blindado

 

Novas facilidades também são propostas no condicionamento do perfil mole peri-implantar das próteses, seja na fase de extração e implantação imediata, através de matrizes que ajudam na construção de cicatrizadores personalizados, ou pela escolha dos materiais nos pilares protéticos (dissilicato, zircônia), sempre acompanhada por bases de titânio.

 

 

A “precisão imprecisa” da tecnologia digital na Odontologia atual

 

No mundo da tecnologia, a disseminação das câmeras de escaneamento intraoral segue em paralelo pela busca da precisão/veracidade entre scanbodies convencionais e de fotogrametria.


No aspecto extraoral, a tendência é por apps de assinatura recorrente, acessados em nuvem, que forneçam vídeos simulando as opções de tratamento e o sorriso que mais se aproxime dos gostos de cada paciente.


Esse aspecto também se verifica na seleção da cor, apontando uma forte sinergia entre clínica e laboratório.

 

Materiais implantáveis e restauradores


Nesse contexto, vemos o retorno dos implantes subperiosteais revigorados (agora customizados 3D) para maxilas severamente atróficas; por outro lado, continua a saga para desenvolver novos implantes zigomáticos e técnicas associadas.

 

A saga da zircônia como material restaurador (incluindo as altamente translúcidas) em arcos totais revela dados de sobrevivência mais favoráveis, embora ainda haja erros comuns de diagnóstico no espaço intermaxilar.

 

Será que a Odontologia é só implantes?

 

Não. A Odontologia atual não foi sequestrada pela Implantodontia — foi reorganizada em torno dela por conveniência de mercado, enquanto a biologia seguiu cobrando o seu preço.

 

Por isso, há dependências. O periodonto condiciona o implante, o metabolismo condiciona o periodonto, a biomecânica condiciona ambos — e a tecnologia, essa "precisão imprecisa", só se converte em vantagem quando existe diagnóstico para interpretá-la.

 

Daí a inversão que o texto propõe: não é a Implantodontia que deve pautar a Odontologia; é a Odontologia que deve conter a Implantodontia.

 

E conter significa saber quando o implante é a resposta e, sobretudo, quando não é.

 

Enquanto não aprendermos a tratar a peri-implantite com a mesma segurança com que tratamos a periodontite, o implante seguirá sendo um excelente recurso — nunca um destino.

 

Profissão multidisciplinar não é elogio retórico: é a condição para que o implante volte a ser o que deveria ter sido desde o começo — parte da Odontologia, e não o seu todo.


 

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