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Resinas reforçadas por fibras: polêmica na Odontologia?

  • Foto do escritor: Paulo Rossetti
    Paulo Rossetti
  • há 18 horas
  • 4 min de leitura
Resinas reforçadas por fibras: na bioengenharia para recuperar o órgão dentário.
Resinas reforçadas por fibras: na bioengenharia para recuperar o órgão dentário.

O uso de fibras para reforçar restaurações/pinos em prótese dentária representa a busca por materiais com módulo de elasticidade e tenacidade à fratura semelhantes ao tecido dentinário. Melhor impossível.

 

Todavia, assuntos de natureza complexa normalmente representam tentativas de encurtar um grande hiato (na maior parte das vezes) entre o laboratório e a prática clínica.

 

Quando se fala em vitalidade e composição estrutural na dentina a ser restaurada, englobamos desde a presença ou ausência de tratamento endodôntico, bem como a qualidade (materiais restauradores e forradores antigos, coloração relacionada à idade, corrosão, fissuras, trincas, pinos dentinários previamente instalados) e a quantidade (presença/número de paredes) remanescentes.

 

Ainda, a composição periférica da cavidade ou do remanescente importa: o esmalte suficiente nesses 360 graus conta muito.

 

É fato que os aspectos acima podem ser facilmente padronizados em estudos laboratoriais pelo menos no que tange ao tipo dentário (por exemplo, os terceiros molares não irrompidos ou pré-molares recomendados para extração por motivos ortodônticos).

 

Por outro lado, a dificuldade sempre está nos estudos clínicos. Ela reside na eterna expectativa do paciente em se comportar como um “corpo de prova”.

 

Mesmo assim, as fibras de reforço têm seguido um caminho interessante em seu desenvolvimento, tanto as classificadas como “longas” e “curtas”.

 

Outro fato que nos preocupa: depois da cárie e da doença periodontal, a fratura dentária é a terceira a subir no pódio das complicações. Justamente aquela que não desejamos.

 

Abaixo, uma costura derivada de quatro revisões/meta-análises recentes para que vocês, leitores do meu blog, tenham suas próprias conclusões sobre essa polêmica (se é que ela realmente existe ou vale o seu tempo clínico).

 

Fibras longas – polietileno de alto peso molecular: o que já sabemos?

 

Referente aos estudos de bancada, são 30 artigos selecionados que falam sobre o RibbondTM, em cavidades classe I ou II, com ou sem tratamento endodôntico, incluindo pinos reforçados com esse material.


Na técnica de meta-análise (2 estudos com dados disponíveis), os valores de resistência à fratura aumentam para os pinos.


Da mesma forma, esse benefício mecânico também é visto nas restaurações classe I e II (8 estudos com dados extraídos), com as fibras posicionadas muitas vezes posicionadas nas paredes nos terços médio e cervical, por vestibular e lingual, e no assoalho pulpar, como se fosse um formato de “letra U” de reforço.


Para terminar, o número de fraturas desfavoráveis em ambos os casos acima também é menor com esse tipo de fibra de reforço.

 

Agora, quando olhamos para os estudos clínicos, que foram detectados nessa revisão, mas não descritos:

  • Piovesan et al. (2007): 97 meses, 109 pinos, 6 fraturas = 90% de sobrevivência

  • Turker et al. (2007): 35 meses, 42 pinos, 1 soltura = 97% de sobrevivência

  • Ayna et al. (2009): 36 meses, 87 pinos, 1 soltura = 98% de sobrevivência

  • Ayna et al. (2018): 36 meses, 31 pinos, 4 solturas = 87% de sobrevivência

 

Fibras curtas – everStick: o que já sabemos?


Outra revisão sistemática da literatura apresenta dados clínicos do everStick (uma mistura de fibras de vidro, UDMA, bis-GMA) para pinos endodônticos:

  • Cloet et al. (2017): 69 meses, 26 pinos, 2 fraturas = 92% de sobrevivência

  • Qian et al. (2017): 12 meses, 48 pinos, 3 fraturas = 91% de sucesso

  • Ferrari et al. (2012): 72 meses, 120 pinos, 3 fraturas = 97% de sobrevivência

  

Fibras curtas – everX Flow, everX Posterior: o que já sabemos?


Sobre os estudos laboratoriais (30 referências com dentes pré-molares e molares, 19 com tratamento endodôntico), o uso das fibras curtas com algum tipo de material para overlay retornou valores de resistência à fratura maiores do que as resinas convencionais, entretanto, não sendo maiores do que as resinas bulk fill.


Ainda, a resina reforçada com fibras curtas, utilizada de forma isolada, mostrou valores maiores do que as resinas compostas convencionais.  

 

Com relação aos estudos clínicos, (5 referências, máximo de 4 anos de acompanhamento), de forma geral, as taxas de sobrevivência estão acima dos 85% e com desempenho similar às resinas compostas convencionais.

 

Afinal, a polêmica sobre as resinas reforçadas por fibras se justifica?


Em todos os estudos citados acima, quer seja pela revisão apenas qualitativa ou pela quantitativa (meta-análise), há ressalvas metodológicas gerais pelos critérios de identificação dos vieses, mas não polêmicas ou discussões acaloradas.


Ainda, não há motivos explícitos para proibir ou não recomendar o uso desses materiais nessas situações clínicas.


Pelas evidências já publicadas, uma das grandes vantagens estaria na criação de um modelo restaurador em duas camadas: a primeira de baixa viscosidade e reforçada por fibras curtas para simular a dentina, e a segunda com um material restaurador nanohíbrido ou bulkfill oclusal, fornecendo uma boa sinergia na dissipação dos estresses especialmente em áreas de grande carga mastigatória.


Do ponto de vista prático, em dentes com cavidades MOD amplas e/ou tratados endodonticamente, e diante de tudo o que se sabe sobre o processo de extração dentária, reabsorção inevitável da tábua óssea vestibular, retardar a colocação de um implante dentário é uma obrigação.


É preciso "reforçar": um implante dentário não substitui nem a biologia ou tampouco a fisiologia de um dente, mesmo diante do pior prognóstico clínico possível.


E mesmo que o processo de colocação dessas resinas reforçadas por fibras (longas ou curtas) seja demorado e trabalhoso em si, como em todos os procedimentos adesivos seguidos à risca, as eventuais falhas que possam ocorrer, conforme a literatura levantada, serão reparáveis em sua maioria.


E essa é a maior vantagem não negociável quando se fala em preservar dentes e/ou raízes estratégicas do ponto de vista estético e funcional.

Bons trabalhos e boas decisões clínicas!

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