Table tops: dissilicato de lítio vs. zircônia Multicamada
- Paulo Rossetti

- há 20 horas
- 3 min de leitura

No começo, parecia uma febre passageira. Mas só parecia.
A odontologia restauradora vive uma época em que a preservação do esmalte é a prioridade absoluta.
Nesse cenário, as facetas oclusais (occlusal veneers), popularmente conhecidas como "table-tops", surgem como a solução padrão para tratar o desgaste dentário severo.
No entanto, uma questão crucial permanece: qual material oferece a melhor longevidade mecânica quando a espessura é reduzida ao limite, pelo menos do ponto de vista laboratorial?
Um estudo recente traz as primeiras respostas ao comparar o desempenho à fadiga e a carga de fratura do Dissilicato de Lítio (LDS) e da Zircônia Multicamada com Gradiente de Composição (Z) em diferentes espessuras.
O Desafio da Espessura "Ultrafina"
O desgaste dentário multifatorial, além de interferir na dimensão vertical, muitas vezes deixa pouco espaço interoclusal para restaurações convencionais.
Assim, para evitar desgastes ainda maiores no dente saudável, os profissionais buscam restaurações "ultrafinas" de 0,5 mm.
Assim, 72 restaurações fabricadas via CAD-CAM foram testadas em três espessuras: 0,5 mm, 1,0 mm e 1,5 mm. Em seguida, as peças foram submetidas a um rigoroso teste de envelhecimento: 1,2 milhão de ciclos de mastigação, simulando aproximadamente 5 anos de uso clínico funcional, sob uma carga de 50 N, em ambiente úmido e com variações térmicas.
Resultados Surpreendentes: O Domínio do Dissilicato de Lítio
Contrariando a percepção comum de que a zircônia, por ser uma cerâmica policristalina, seria sempre mais resistente, os resultados mostraram um cenário diferente para espessuras finas:
Taxa de Sucesso na Fadiga das table tops
O Dissilicato de Lítio (LDS) obteve 100% de sucesso em todas as espessuras (0,5 mm a 1,5 mm). Nenhuma peça fraturou durante a simulação de 5 anos de mastigação.
A Zircônia Multicamada (Z) apresentou falhas críticas na espessura de 0,5 mm. Duas das doze amostras (16,7%) desenvolveram trincas durante o teste de fadiga, indicando uma vulnerabilidade do material quando levado ao limite da finura.
Carga de Ruptura (Resistência Final) das table tops
O LDS superou significativamente a zircônia em todas as categorias.
O dado mais impressionante: o LDS de 0,5 mm (ultrafino) apresentou uma carga de ruptura média de 3194 N, enquanto a zircônia na mesma espessura suportou apenas 1529 N.
Mesmo na espessura de 1,5 mm, o LDS manteve uma superioridade robusta (3713 N versus 2382 N da zircônia).
Por que o Dissilicato de Lítio “venceu”?
A explicação reside na natureza da união e na estrutura do material. O Dissilicato de Lítio é uma cerâmica vítrea que permite o condicionamento ácido, criando uma união micromecânica e química extremamente forte com o cimento resinoso e o dente.
Essa integração cria um "complexo dente-restauração" monolítico. Quando a restauração é fina (0,5 mm), a capacidade de adesão do LDS compensa sua menor resistência intrínseca em comparação aos blocos maciços de zircônia.
A zircônia, embora resistente, possui uma união adesiva menos previsível e uma maior rigidez (módulo de elasticidade), o que pode levar a uma concentração de tensões na interface quando a espessura é reduzida, resultando em trincas.
Implicações Clínicas: O que isso significa para o seu consultório?
Para o clínico, os dados deste estudo oferecem segurança na tomada de decisão baseada em evidências:
Para restaurações de 0,5 mm: O Dissilicato de Lítio é a escolha padrão-ouro. Sua performance superior sob fadiga e carga de ruptura o torna o material mais confiável para casos de erosão ácida ou bruxismo leve onde o espaço é mínimo.
Zircônia multicamada: Embora seja um material excelente para coroas posteriores e pontes devido à sua estética e resistência em espessuras convencionais, ela deve ser usada com cautela em espessuras abaixo de 1,0 mm para facetas oclusais.
Adesão é a chave: A superioridade do LDS depende diretamente de um protocolo de cimentação adesiva impecável. Sem a adesão ao esmalte/dentina, a cerâmica vítrea perde sua capacidade de distribuir as cargas mastigatórias.
Lembrando: até o momento, esse pode ser o primeiro estudo laboratorial dessa natureza.
Que venham os próximos capítulos.




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