Dentinogênese Imperfeita: Calcanhar de Aquiles na Prótese Dentária?
- Paulo Rossetti

- 10 de out.
- 3 min de leitura

Eu vou usar o ovo como analogia no meu raciocínio: sua casca é resistente e precisa proteger os conteúdos internos até o momento final. Biologicamente, essa solução elegante (como tudo o que existe na natureza) cumpre a sua finalidade.
Na Odontologia, por trás do esmalte dentário responsável em parte por sorrisos atraentes, há outra camada vital, menos conhecida, e mais amarelada: a dentina. Além de ser o verdadeiro responsável pela cor, este tecido desempenha um papel crucial na força, sensibilidade e longevidade da dentição.
Na prática Odontológica, o esmalte também cumpre o seu papel. Entretanto, ele é só a primeira camada de proteção, não resistindo aos ácidos produzidos pelas bactérias que abrem caminho para a dentina à medida que o mesmo se esfarela (como a casca do ovo).
Um lembrete: a dor não começa no esmalte e sim pela dentina, na grande maioria dos casos de atendimento odontológico.
Dentinogênese: uma sinfonia fisiológica
A formação da dentina (dentinogênese), é uma orquestra precisa de eventos biológicos. Parece muito estranho quando falamos em células para tecidos duros? Sim. Mas existem. São os odontoblastos, as células localizadas na periferia da polpa dentária (a terceira camada interna), lançando uma matriz não mineralizada e rica em colágeno tipo I.
À medida que os odontoblastos continuam a depositar essa matriz, eles recuam lentamente, deixando para trás prolongamentos celulares microscópicos, chamados processos odontoblásticos, que ficam imersos em pequenos canais dentro da dentina – os túbulos dentinários. É como se fosse um cano de PVC feito de dentina que distribui essa fiação (os processos).
Mas o colágeno também é um tecido mole, e melhorar a sua resistência é o próximo passo. Afinal, as forças de mastigação estarão sobre o esmalte, que tem menos chance de “dobrar sob pressão” do que a dentina. Essa etapa se chama mineralização. O mesmo princípio de proteção aos ossos.
Então, os íons de cálcio e fosfato se organizam ao redor de uma cadeia de carbono para formar os famosos cristais de hidroxiapatita, que por sua vez se associam às fibras de colágeno. Este processo confere à dentina sua força e rigidez inerente.
Durante o processo, há os mestres de obras: proteínas não colagenosas, controlando a iniciação e o crescimento desses cristais de hidroxiapatita. É o reforço na construção.
Importante: diferente da polpa dentária, após sua formação, a dentina é um tecido não vascularizado, mantendo seus processos odontoblásticos, que são vitais para a transmissão dos estímulos.
A Arquitetura da Dentina: Microestrutura e Composição Complexa
A dentina não é um material homogêneo; sua microestrutura é complexa e hierárquica, influenciando diretamente suas propriedades mecânicas.
Os túbulos dentinários são envoltos por uma dentina altamente mineralizada e mais rígida, com um fluido no seu interior, hidratando-a e contribuindo para suas propriedades viscoelásticas, resistência à fratura, e carga funcional
Dentinogênese Imperfeita: atenção protesistas
Apesar da notável engenharia da dentina saudável, existem condições genéticas que podem comprometer sua formação, resultando em dentes frágeis e vulneráveis.
São aquelas situações no consultório onde tudo o que fazemos não dá muito certo.
Por exemplo, é complicado fazer preparos dentários em pacientes com dentinogênese imperfeita. Diante de uma dentina frágil, as pontas diamantadas têm sua ação de corte prejudicada.

Ainda, os dentes afetados geralmente apresentam uma coloração azulada/acinzentada ou amarronzada, opalescente. O esmalte se despega facilmente da dentina (como na situação da casca do ovo)
Radiograficamente, os dentes exibem coroas bulbosas, raízes curtas e finas, e obliteração rápida da câmara pulpar após a erupção do dente.
Abscessos periapicais podem ocorrer mesmo sem lesões cariosas, possivelmente devido à penetração bacteriana através de rachaduras anormais na dentina.
Tudo isso pode deixar a dentina até cinco vezes mais macia. As anormalidades da dentina também podem dificultar a adesão de materiais restauradores.
A Dentinogênese Imperfeita é genética?
Antes, entenda que essa é uma doença rara. Ela se manifesta como uma alteração do desenvolvimento da dentina, podendo ser isolada ou fazer parte de síndromes maiores, como a Osteogênese Imperfeita, que é caracterizada por fragilidade óssea.
A causa mais frequente da dentinogênese imperfeita isolada é uma variante do gene DSPP. Em contrapartida, no caso da osteogênese imperfeita, são as variantes nos genes que codificam os colágenos tipo I (COL1A1 e COL1A2).
A Busca por Tratamentos Mais Eficazes Continua
Os tratamentos atuais para a dentinogênese imperfeita visam principalmente restaurar a função, a estética e prevenir danos adicionais aos dentes, como as coroas pediátricas e restaurações em resina composta para dentes decíduos, coroas protéticas para dentes permanentes, e os tratamentos ortodônticos para corrigir a oclusão.



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