Os caminhos até o congresso IN26 - parte 2 - perda dentária unitária
- Paulo Henrique Orlato Rossetti

- há 1 dia
- 4 min de leitura

A chegada dos implantes dentários desafogou muitos tratamentos odontológicos tidos como "impossíveis". O sucesso das próteses totais sobre implantes contemporâneos, especialmente na arcada mandibular, local onde o osso “some rapidinho”, popularizou esse conceito.
Em resumo: mastigar "de verdade" era para os abençoados pela biologia óssea.
Em pouco tempo, novas propostas surgiram em arcos parcialmente edêntulos, e não demorou muito até que a perda dentária unitária fosse encarada com força total.
Rapidamente, dois tipos subliminares de ilusão de óptica se desenvolveram, sendo muito piores do que “ver água no deserto”.
A ilusão de óptica visual: “ocupar o espaço por ocupar”
Então, basta apenas um implante dentário e o problema de espaço estará resolvido. A primeira ilusão é justamente a que precisa desaparecer rápido.
Você pode treinar com 10, 20, ou 50 dummies (como chamamos os implantes dentários não esterilizados e com função exclusiva de hands-on) e sair com a sensação de uma medalha no peito, mas na vida real essa a equação que deixa o seu implante “arrumadinho” envolve diversos fatores a serem controlados a priori:
o diâmetro do seu implante
o comprimento do seu implante
o espaço entre os dentes vizinhos
a posição 3D do seu implante
o nível ósseo dos dentes vizinhos
a espessura da tábua óssea vestibular
a espessura do tecido mole vestibular
Aqui começamos a separar os fatos: há situações que precisam de muito “extreme makeover”, ou seja, tem tanta coisa para fazer antes de colocar UM implante dentário.
Em muitos casos, o trio Endodontia, Periodontia e Ortodontia é obrigatório, como nas situações abaixo:
tratar lesões apicais nos dentes vizinhos
fechar ou abrir espaços na arcada dentária
melhorar as relações oclusais para evitar sobrecarga
aumentar o tamanho das coroas dentárias
Todo tratamento de saúde tem seu tempo de maturação. O implante dentário unitário atingiu essa fase depois de uns bons 20 anos e milhares de artigos científicos acumulados. Mas é bom lembrar: não sabemos tudo (e nunca saberemos).
Ao mesmo tempo em que o nosso conhecimento aumentou, a quantidade de problemas cirúrgicos e restauradores duplicou ou triplicou, dependendo da situação geográfica, hábitos culturais, e treinamento técnico / científico dos profissionais.
Abaixo, uma lista das complicações vistas nos últimos 20 anos:
cicatrizes pós cirurgia que deixam o tecido gengival inoperável, havendo ou não necessidade colocar ou remover um implante dentário
papilas de tecido mole que não preenchem o espaço interproximal (buracos negros)
proporção largura/altura dentária restauradora incompatível com o espaço unitário edêntulo
perfil de emergência irreal para a passagem do fio dental e mecanismos de autolimpeza
A ilusão de óptica emocional: cimentar ou parafusar na perda dentária unitária...hum...depois a gente vê...
“O preço da liberdade é a eterna vigilância”.
Implantes dentários possuem uma interface frágil com o tecido mole e o tecido ósseo. Diferente dos dentes naturais, a porta de entrada na gengiva não é tão protegida assim pelo sulco peri-implantar e adesão epitelial.
Esse tecido ósseo supracristal, conforme a nova classificação das doenças periodontais e peri-implantares, caso não seja bem cuidado todos os dias, é um castelo de cartas: cairá com um sopro.
Se uma pedrinha no sapato incomoda muita gente, imagine uma montanha!
Fato: mais de 50% dos casos de peri-implantite estão associados aos excessos de cimento. Origem do problema: a prótese (será que só ela mesmo?)
Inflamação e sangramento persistentes, dificuldade de higienização, alterações de cor na margem mucosa são as consequências mais leves até que uma radiografia periapical mostre uma “constelação” de corpos estranhos dentro da gengiva.
Essa detecção depende de muita experiência. E até que o problema seja encontrado, a restauração e o implante podem ter “partido”.
Para complicar, tem muito agente cimentante que não "dá força de sinal" na radiografia (a tal da radiopacidade).
Ou seja, fica invisível por muito tempo. Há algo pior do que isso? O problema bem debaixo dos nossos narizes.
A troca da prótese resolve o problema? Depende da posição espacial do implante dentário.
Não é "incômodo" ou "frescura", não é que o seu paciente é o chato da vez...é um problema de saúde real!
Incisivos, caninos, pré-molares, molares: existe uma perda “menos pior”?
Em Odontologia, o menos pior é restaurar o que ainda não foi perdido. Não há muito espaço para negociar sem o trunfo de um ligamento periodontal.
Indiscutivelmente, todos esses locais anatômicos são ruins, especialmente na zona estética (visibilidade dos seis dentes anteriores e quem sabe as duas faces dos pré-molares no sorriso).
Entretanto, no pódio de votação clínica, o sítio edêntulo do incisivo lateral superior (por agenesia ou acidentes traumáticos/ reabsorções) ganharia por maioria esmagadora. Dá uma certa preocupação no atendimento desses casos.
As “velhas” terapias restauradoras estão voltando?
Seria melhor trocar a palavra “velha” por fora do radar. Essa furtividade é aparente.
Para muitos pacientes com uma restauração sem a menor condição estrutural, é melhor oferecer uma prótese adesiva do que o implante unitário.
Sendo mais “radical”: porque não preparar os dentes vizinhos para uma prótese parcial fixa?
Não jogue pedra nesse blog se o seu paciente não aceita usar aparelhos ortodônticos ou fazer uma cirurgia de gengiva: o ponto é que ele ou ela AINDA não são candidatos ideais ao tratamento com implante dentário.
IN26: a nossa chance de aprender mais (e melhor)
O lançamento do site oficial do IN26 está próximo e os primeiros convidados confirmados (clique aqui para ver a lista inicial).
Ainda, o assunto perda dentária unitária sempre foi abordado nesses últimos 20 anos.
Agora, deverá ganhar mais força, especialmente pela tecnologia digital que une as imagens por tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) ao escaneamento intraoral gerando guias estereolitográficos ou por impressão 3D para diminuir a chance de erros, especialmente nos casos de extração e colocação imediata de implantes.
Bons trabalhos e que os dentes dos nossos pacientes sejam longevos.




Comentários