Recessão gengival: escovação dentária elétrica ou manual?
- Paulo Henrique Orlato Rossetti

- 5 de jan.
- 3 min de leitura

Imagine uma situação: você está caminhando pela rua e topa com um engraxate. Ele oferece um serviço simples: dar um "perfect" nos seus sapatos. Enquanto você se posiciona confortavelmente, ele prepara a pasta. Depois de alguns minutos passando os panos, finaliza com uma flanela. Os seus sapatos ficam brilhando e você está contente.
Agora, imagine outra situação: você está fora de casa e acomodado em um hotel. Acaba de acordar e se aprontar para tomar café. Pega o elevador, chega até o saguão do hotel. De repente, percebe que existe uma máquina de escovação automática para sapatos. Aperta o botão, a escova começa a girar. Depois de algum tempo, seus sapatos brilham e você está contente.
Ambas as cenas acima, guardadas as devidas proporções, representam os procedimentos de escovação manual e elétrica na Odontologia.
Mas não pense que é fácil fazer a "faxina": são pelo menos 28 dentes com 3 superfícies de acesso direito e duas de acesso indireto (onde só passa o fio dental).
E dentre as dúvidas mais comuns sobre higiene bucal, o tipo de escova ganha destaque, já que muitas pessoas também acabam por machucar as gengivas nesse processo, criando a recessão gengival e fazendo com que o dentista adote procedimentos para recobrimento radicular.
A recessão gengival: o que é e seus fatores de risco
Recessões gengivais nada mais são do que migrações do tecido mole em direção apical.
Trocando em bom português, é quando você está na frente do espelho e percebe que a margem da sua gengiva "subiu" em relação ao dente vizinho.
Essa "subida" pode ser de 1, 2, ou até de 3 milímetros. Começam a incomodar quando ocorrem na região estética.
No século 21, também pertencem ao grupo das lesões cervicais não cariosas. É uma reação de afastamento ao agente agressor. Se esse processo se tornar crônico, as gengivais não voltam mais às suas posições originais.
Recessões gengivais "apagam" sorrisos, removem a espontaneidade. Não existe nada pior do que ver a gengiva "sumindo".
Uma revisão sistemática recente da literatura mostra que sua prevalência global varia conforme a extensão da recessão gengival:
acima dos 80% para 1 mm
acima dos 40% para 2 mm
acima dos 15% para 3 mm
Ainda, os fatores de risco com maior chance de provocar uma recessão gengival seriam:
sexo masculino
consumo de álcool
tabagismo
placa dentária
frênulo com inserção alta
periodontite
histórico de tratamento periodontal
Outro trabalho clínico mostra: pacientes leigos conseguem perceber uma assimetria (desnivelamento) entre as margens gengivais quando a recessão gengival fica entre 0,8 mm e 1,2 mm.
Essa diferença é mais fácil de identificar nos dentes incisivos centrais do que nos incisivos laterais.
Afinal: escova manual ou elétrica?
Quando o seu paciente tem recessão gengival, qual é a recomendação: continuar com a escovação mecânica ou trocar por uma escovação elétrica?
A pergunta é boa, e a resposta bem difícil.
Estudos dessa natureza precisam de alto rigor científico e processo de randomização, onde os mesmos pacientes passam em momentos diferentes pelos dois tipos de escovação. Ainda são poucos.
Por exemplo, quando pacientes com pelo menos dois dentes tendo recessão gengival acima dos 2 mm são observados por 3 anos de acompanhamento contínuo, higienizar duas vezes ao dia com uma escova elétrica mostra-se mais favorável (diferença estatística significativa) do que a escova convencional padrão recomendada pela American Dental Association.
Porém, a escova elétrica não "cura" a recessão gengival. Ela só reduz o dano ao longo do tempo.




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